Curtas

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A Televisão como difusora de interesses da classe dominante. Texto de Márcia Tranzillo

A televisão é o meio de comunicação mais poderoso inventado pelo homem. Ela é o maior veículo de lazer e informação da nossa sociedade. Sua onipresença é uma característica do mundo atual. Sendo um veículo de cultura de massa, ela é um fato social. Está à disposição de todos independente de classe social ou nível cultural. Penetra na intimidade cotidiana de cada indivíduo de uma forma tão absoluta que, é capaz de influenciar e modificar seus hábitos, seu comportamento, sua linguagem de maneira incontestavelmente forte. Como empresa privada, não é difícil perceber que a televisão tem um papel que favorece a ideologia dominante, tornando-a um instrumento opressor e alienante. Voltada para uma sociedade de consumo, o seu objetivo está longe de ser liberal e esclarecedor. Ela é antes de tudo formadora de consciência e amortecedora de opiniões. Esse interesse em defender a classe dominante e seus interesses sócio-político-econômicos, está longe de atender às aspirações do povo. Centrada nos interesses da estrutura dominante, não atuará como instrumento gerador de mudanças que atendam às necessidades das massas, mas como instrumento de mudanças que atendam à conveniência daqueles que a manipulam. Para que a televisão mudasse seu papel seria necessário que o seu poder estivesse em mãos de grupos representativos do povo e não em mãos de minorias políticas. Com o poder da televisão restrito a essas minorias, não se pode esperar que ela seja transmissora de valores humanos e democráticos. Mas como a maioria do público é pouco atenta a isso, a TV tem o poder de convencer que o seu papel é de difusora dos interesses do povo. O que a televisão, como instrumento à disposição dos interesses privado-comerciais faz, é decidir, por si mesma, o que todo indivíduo deve saber, do que deve falar, o que deve assistir sem se preocupar com a sua opinião. O interesse da televisão é que o público aceite e perceba o que ela veicula, da forma que interessa que seja percebido. Por isso deve-se estar atento, sem que se perca de vista o caráter privado da TV, observando que ela está a favor da ideologia poltico-econômica. Toda sua produção é intencional, portanto, não está voltada para atingir a razão, e sim a emoção como forma de anulação de uma postura crítica do telespectador. Esse veículo de lazer e informação tem como produto o programa. Este, mais do que distrair objetiva "vender valores e atitudes" (Hoineff). O que é grave é que o seu consumidor é um público despreparado, pronto para receber o produto da forma que lhe é comercializado. Em uma passagem do seu livro "TV em Expansão" Nelson Hoineff diz que "A TV cria e desfaz ídolos em questão de segundos, transforma tramas de ficção em problemas nacionais; o domínio sobre esta produção, enfim, é o poder de criação do ambiente propício à formação de consciências". Não precisamos buscar um exemplo muito distante, para percebermos que as afirmações de Hoineff se fundamentam. Exemplos têm inúmeros: tivemos no ano de 1989, quando Fernando Collor de Mello foi eleito Presidente da República, e, atualmente, com as manchetes sensacionalistas da violência no Rio de Janeiro. Durante a campanha para as eleições presidenciais, a televisão transformou a imagem de um tirano corrupto, em jovem bonito, disposto a moralisar e modernizar a nação caçando marajás. Homem moderno e popular: fazia cooper, esportes diversos, era culto; uma imagem vendida para atender conviniências e ganhar a simpatia popular. A mesma mídia que levou Collor ao poder o derrubou. De mocinho foi transformado em bandido em questão de segundos. Na manipulação para a derrubada do ex-herói, a televisão conseguiu fazer com que milhares de jóvens, em todo o País, saíssem às ruas pedindo impichement contra o presidente. Nada mais conveniente, que nesse momento propício, uma emissora de TV levasse ao ar, por mais de um mês, uma série chamada "Anos Rebeldes", em que os jóvens saíam às ruas protestando contra a ditadura, a arbitrariedade e corrupção do governo militar no País. Ora, diante da situação política em que se encontrava o País no governo Collor, os escândalos narrados a cada minuto, como que dizendo ao povo que também se manifeste contra ele. Era o ambiente propício para que a série fosse ao ar, servindo de meio de persuasão para induzir os jóvens (sentindo-se cada um como o próprio protagonista da série) saírem às ruas com a cara pintada pedindo o afastamento do presidente. Intento perfeito: o homem recebeu o impichement. Os poderosos da nação, através da televisão, fizeram com que os seus interesses fossem assumidos pelo povo, e, até hoje se diz que o povo foi quem derrubou o presidente. Situação análoga de manipulação e sensacionalismo veiculados pelos jornais televisivos é a violência no Rio de Janeiro. Que ela existe de forma "incontrolável" é um fato que se perde de vista no tempo. Mas massificar todo tempo que ela existe não é o principal, porque é o óbvio; imprescidível é tornar conhecida a real causa que gera tal violência, para buscar soluções verdadeiras. "A televisão determina os valores e influencia praticamente todas a atitudes do homem moderno". É sem dúvida o maior instrumento de manipulação do povo. A influência que se lhe impõe na vida cotidiana das pessoas leva ao empobrecimento cultural. Os individuos passam mais tempo à frente da televisão do que lendo um livro, indo ao teatro, ao cinema ou buscando outro tipo de divertimento que o possibilite estar, sobretudo, no convívio social. Essa relação com a TV leva o indivíduo ao isolamento, entre outras coisas. A castração da imaginação é provocada pela TV, uma vez que ela já oferece a imagem pronta ao telespectador. "A imagem é dada para consumo, sem maiores apelos ao intelecto". O telespectador recebe uma realidade deformada, esteriotipada, porque na verdade o que a TV faz é simular a realidade; por isso, também pode-se atentar para o quanto ela representa um perigo social. A intencionalidade, a manipulação de conciências, a tentativa de amortização da opinião levam a televisão a uma mesmice de conteúdo, transformando-os em clichês até na forma como são abordados. Isso condiciona o público a uma doutrina maniqueísta, em que o referencial de bem e mal é imposto pela estrutura social e por suas convenções. Segundo Muniz Sodré, isso é a demonstração da ação conservadora e pseudomoralizante da TV. De acordo com McLuham, é difícil apresentar de forma sistemática ou visual a influência da TV, porque ela afeta a totalidade de nossas vidas: Pessoal, política e social. No entanto não é difícil verificar a influência que ela exerce na "perda de identidade cultural": a mudança dos modos, a assimilação da cultura exterior incorporando a forma de vestir, de comer, os tipos de música que se ouve, etc. E o maior importador desses novos modos é a televisão. Conhecer a cultura do outro é importante, mas deve-se ter cuidado para não se perder seus próprios valores e nem viver sobre valores esteriotipados. No que tange a criação de esteriótipos, sem dúvidas, a TV é muito eficaz. Para finalizar, como mediadora dos interesses do Estado e das classes dominantes, a TV é um instrumento de controle da opinião pública e influencia a mentalidade do povo, que quanto menos esclarecido mais influência recebe da televisão.

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